Mãe de primeira viagem. Pior que isso só se for um pai de primeira viagem. Ainda mais se for freelancer, ou seja, não tem hora para ir trabalhar e pode ficar lá ao lado da esposa esperando a criança nascer.
“Cada careta era um flash, cada grito também”, foi sempre assim que minha mãe narrou a insana vontade do meu pai de registrar minuto a minuto o meu nascimento. Com uma câmera “daquelas antigas” foram muitas fotos pretas e brancas até o momento do berro da neném aqui.
Márcia, minha mãe, sempre diz que, enquanto queria que ele segurasse a mão dela ou desse um sorrisinho confortante, vinha um flash. Ela pensava: “meu deus, como essa melancia vai passar pelo buraquinho”, flash. “Não vou gritar muito para não acharem que sou escandalosa”, flash. “Vou enfiar essa câmera goela abaixo” e flash.
Foram tantos e em tão grande número que ela diz ter se acostumado. E daí que estava torta naquele momento ou descabelada em algum outro. Era a primeira filha, merecia o registro. E flash.
Então, nasceu. Flash, flash, flash. Lava o bebê, flash. Enrola na cobertinha, flash. Põe no colo da mãe, flash. Enfim, ele saiu da sala de parto. Foi contar para os parentes que a menina era uma graçinha e que tinha todos os dedinhos. Os dez das mãos e os dez dos pés. “Ah! Vai se chamar Luana. A Márcia viu em um filme”, falava animado.
Minha mãe pôde enfim respirar. Primeiro, porque os flashs tinham acabado. Segundo, porque a melancia tinha saído. Mas aí ele volta. E ela pensa: “Isso, tira mais foto. Você não tem mais nada interessante para fazer mesmo. Devo estar linda, acabei de sair de um spa, não? Olha minha cútis suada e meu maravilhoso cabelo horroroso. Ainda vou fazer ele engolir essa câmera”.
Ele, então, resolve que vai tirar outra foto para pôr em um quadro. Ajusta o zoom, o diafragma, a distância. Olha pelo visor. Pára e olha de novo. Abaixa a câmera. Chega mais perto e diz: “Estou achando essa menina muito clarinha. Márcia, Márcia. Se essa menina não escurecer em três dias te boto para fora de casa”.
Susto. “Como assim branquinha? Presta atenção, Paulo. Você está louco?”. E ele diz: “Eu sou negro, você é negra. Agora me explica essa menina clarinha”. A enfermeira que arrumava algumas coisas no quarto riu e simplesmente disse: “Calma, pai, é que ela ainda está meio vermelhinha. É assim mesmo”. “Ah, é?”, disse o paizão ainda com ar de dúvida. “Então está bom”. Flash, flash, flash.
Hoje, 25 anos depois, a pele ficou mesmo mais moreninha. Quanto aos flashs, odeio todos, seja de quem for. Acho que gastei a minha cota no dia do meu nascimento. Mas por outro lado entendo meu pai. Adoro dar um flagra. Bobeou, flash!
* redação feita para a aula de Técnica de Redação II, na qual tínhamos que narrar um fato relacionado ao nosso nascimento. Hahahahahaha
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